quinta-feira, 14 de julho de 2011

Dois Eles

Era impossível conversar com alguém assim. Até pensava em doença, daquelas psicológicas agravadas pelo caos do mundo. A fome de viver talvez o tivesse feito matar. Não com armas de fogo nem com sangue, mas com alma. A ânsia de ter duas vidas que coexistiam completamente paralelas o fez esquecer que ninguém pode ter tudo o que quer. Muito menos duas vidas que, supostamente, nunca se encontrariam.
                Talvez naquela época ainda não se lesse a “Sorte de Hoje”, então ele nunca ouvira falar em “Se não quiser que ninguém saiba, não faça”. E o fez. Sua consciência não impedia nada. Ele continuou assim. Em dois mares de vida... Mal sabia que os mares passariam por um período de muito frio, que os congelaria. E nenhum peixe sobreviveria.
Foi um erro bobo. Mas ele mesmo – talvez com a ajuda do destino, que não deixa barato a quem mente – entregou-se a confusão. Não só no momento em que resolveu concretizá-la, mas também quando deixou a prova a mercê da vida número um. Corações congelaram dentro do mar. Urubus voavam para comer os restos das almas que por ali vagavam. Mas passavam reto. Era uma sujeira que esses animais não conseguiam tirar do ambiente. E ali permaneceu, empilhando e criando um lixão (de sentimentos) que contaminava tudo perto: da água às cores. O céu tornou-se preto e cinza com a nevasca que chegara.
Do outro lado, ele atendia por outro nome. Na vida número dois era outra pessoa. A própria vida era bem mais fácil: nela só era conhecidos os sorrisos e gargalhadas. Lágrimas e discussões não tinham vez. Era incompleta, falsa. Ilusória. E por isso mesmo, vida era um termo errado para o que existia por ali.
Como uma profecia, só ele – o dono das vidas – poderia descongelar os mares. Ressuscitar as almas que ainda restavam. E, quem sabe, até regenerá-las. A decisão não pertencia a mais ninguém. O preço que deveria pagar? Abriria mão, completamente, de uma das vidas. Aceitaria prós e contras. Ele deveria escolher entre o amor e o que ele achava que era amor.

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